Matias, o menino negro fotografado com um boneco de “Star Wars”, foi a Hollywood. Por Cidinha da Silva

Matias Melquíades e Finn, o heroi de “Star Wars”

 

Em tempos de comunicação-relâmpago pela Web, a imagem viralizada do garoto Matias Melquíades com o Finn, personagem de Star Wars, chegou à caixa postal de John Boyega, seu intérprete no cinema. Junto com a fotografia digital alguma notícia sobre o debate em torno da representatividade negra desencadeado no Facebook e em outras mídias do país, tais como jornais impressos de grande circulação.

Sensibilizado, John Boyega postou o retrato do menino portando o boneco e escreveu no Instagran: “Tempo para ser grato. Do que você carrega nas mãos ao potencial da sua mente, você é um rei homem jovem (ou pequeno homem)”. Sim, ele disse “young man”, não disse “little boy”.

Os homens negros afirmados dos EUA se chamam de “man”, tenham a idade que tiverem. Desconstroem assim a expressão “boy” do tempo do escravismo e mesmo do período posterior de segregação legal, utilizada para inferiorizar os homens negros de qualquer idade, de crianças a velhos.

Imagine um senhor de 60 anos, pai, avô, sendo tratado pelo patrão como “boy”, na frente de seus netos. “Hei boy sele meu cavalo”. “Boy descarregue a carroça”. Imaginou? Lembrou-se de algum filme? Era uma estratégia racista para humilhá-los, para subalternizar a masculinidade daquelas pessoas, dependentes economicamente, do trabalho oferecido pelos brancos. Submetidos a leis também elaboradas pelos brancos.

A mensagem do ator a Matias enfatiza um sentimento de pertencimento à mesma comunidade de destino, ao Ubuntu, que começa a tomar corpo entre nós. Palavra de origem banto, tronco linguístico espalhado por grande parte da África, Ubuntu é comumente traduzida como “eu sou porque você é”.

O Finn, representado por Boyega, homem negro estadunidense, é referência de imagem positiva e semelhante para Matias, garoto negro brasileiro. O menino, por sua vez, com os olhos encantados pelo boneco inspira Boyega e o fortalece frente aos questionamentos racistas de “terem introduzido um negro” na saga de Star Wars. Todo mundo se lembra do debate instaurado com a escolha do ator para o papel, não é?

O diálogo entre dois negros desconhecidos, um jovem e uma criança, via redes sociais, a partir de um filme que tem um personagem negro, gerador de um boneco que deixa uma criança feliz por ser parecida com ele, empresta ao mais-velho o sentimento de missão cumprida. No mais-novo, deve despertar sensações múltiplas de poder ser, sonhar, querer e alcançar mais do que foi imaginado.

E se o tempo anterior de Boyega foi de rejeição, sofrimento, desrespeito a sua condição de ator por ser negro, agora é de agradecimento à roda da vida porque a construção dramatúrgica do Finn fortaleceu a representação negra positiva na mente de Matias e de milhões de outras crianças negras mundo afora. É tempo de Ubuntu porque Finn está protegido como símbolo de realeza nas mãos do menino-rei.

 

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Por que é urgente contar a história completa da compra de votos na reeleição de FHC. Por Kiko Nogueira

Ele

 

O DCM anuncia seu novo projeto de crowdfunding: a história da compra de votos na reeleição de Fernando Henrique Cardoso. O caso foi devidamente abafado. Por quê? Quem eram os personagens? Como foi operado? Qual o papel de FHC? Como a história sumiu da imprensa?

Destacamos novamente o jornalista Joaquim de Carvalho para o trabalho. Joaquim é autor da séria de reportagens sobre o Helicoca e a sonegação da Globo na compra dos direitos da Copa de 2002.

“Em abril de 1997, eu trabalhava na revista Veja como subeditor de Brasil e tinha entre minhas fontes Paulo Maluf, que havia terminado seu mandato de prefeito de São Paulo poucos meses antes, com uma alta taxa de popularidade”, diz Joaquim.

“Tinha conseguido eleger o sucessor e era visto como pré-candidato a presidente da República. Nessa condição, era fonte obrigatória de todo jornalista que cobre política. Maluf me disse que só teria alguma chance na disputa a presidente se a emenda da reeleição não passasse. Ele falou” ‘O governo comprou os votos de que precisava’”. Maluf deu uma dica: “Se você quer contar como os votos foram comprados, comece pelos deputados do Acre”.

Algumas semanas depois, o jornalista Fernando Rodrigues publicou na Folha de S. Paulo o conteúdo das fitas que uma fonte sua, a que deu o nome de Senhor X, havia gravado em conversas com dois deputados federais. E eles eram de onde? Acre.

As conversas eram escandalosamente reveladoras da compra de votos. Os deputados confessavam que haviam recebido R$ 200 mil reais (R$ 894.451,70, em valores corrigidos pelo IGP-M) para votar a favor da emenda, num esquema que era chefiado pelo então ministro Sérgio Motta, já falecido, homem de confiança de FHC e sócio dele numa fazenda em Minas Gerais.

O Senhor X era Narciso Mendes, empresário e ex-deputado constituinte. Seu advogado dizia que havia mais 16 fitas sobre o mesmo tema, com outras gravações, além das que estavam em poder de Fernando Rodrigues.

As redações esqueceram Narciso Mendes, o Senhor X, e nunca mais o procuraram. O DCM quer voltar a esse episódio e contar tudo. Vamos falar com Narciso, com os demais envolvidos explicar como foi a operação e como tudo foi sutilmente atirado para debaixo do tapete.

Se até Paulo Maluf se impressionou, imagine-se o que se poderá encontrar revolvendo a lama do período. É um assunto premente e que continua atual, especialmente em tempos de golpes paraguaios de paladinos da moralidade.

Contamos com você.

Abraço.

 

Tempo de festas , tempo de racismo

Ano novo. Na praia com dois amigos brancos, cantando e tocando violão. Um estranho branco se aproxima, pedindo para integrar a roda, entusiasmado com a animação do trio. Pergunta os nomes. Fulano, prazer.

Por Fabio Ando Filho Do Outra Coluna

Ciclano, prazer. Ah, você eu não vou guardar o nome mesmo, posso te chamar de japa? Você vai ser O Japa, ok? Certamente pelo menos um dos meus amigos percebera e se incomodara, mas como eu não havia reagido, resolveram também não se manifestar a respeito. E então, em um acordo tácito, deixamos quieto e resolvemos seguir a festividade.

No dia seguinte, comentamos com a outra amiga que viajava conosco sobre a noite anterior, sobre como uma personagem bizarra tinha nos abordado e falado tanta merda, mas nos restringimos a contar sobre o fato dele ser milico, de fazer um beatbox estranho e de cantar como o Rogério Flausino.

Resolvi deixar o fato passar, assim como faço na maioria das vezes quase todos os dias da minha vida, quando interajo com pessoas brancas desconhecidas. Mas nesta semana pós-recesso, tive a oportunidade de ler dois artigos que, diferentemente, resolveram falar. Tomei consciência de que a minha história não era única, não havia sido a primeira vez comigo – nem de longe – e não seria eu a única pessoa.

“Há algo de ritual no nosso cotidiano, um fantasma que fingimos não ver para não ficarmos constrangidos pela sua constante presença. Denunciar esse fantasma deve ser nossa tarefa, pois, sabemos que mesmo nos momentos mais corruptos da história, a baixeza tem restrições. Mas que restrições podem existir para algo tão naturalizado por nós? Por uma baixeza tão vil como a prática do racismo e da segregação social?” (No Brasil até o Réveillon é racista, Douglas Rodrigues Barros, 05/01/2016)

O filósofo Douglas Rodrigues Barros comenta no  Blog NegroBelchior sobre a experiência de passar por uma praia privatizada pela aristocracia branca durante sua viagem de ano novo. Na mesma linha, a escritora Nicole Chung, do blog The Toast, conta sua história de natal, em um jantar com a família de seu marido branco, quando uma desconhecida branca, visita da casa, resolveu ser original e fazer aquele comentário de “vocês parecem todos iguais”. A autora conta sobre o longo processo interno de decidir se responde ou se consente, conta sobre como olhou para as companhias brancas se perguntando sobre quais daquelas pessoas teriam notado, teriam se constrangido junto a ela.

“Eu estou desconfortável no momento, isto é – terrivelmente – certo, mas isso significa  que tenho o direito de deixar todas as outras pessoas desconfortáveis também? Eu   realmente quero forçar todas as pessoas nesta mesa a escolherem lados no debate     definitivamente impossível de vencer de “foi ou não foi racista”? […] Pela última vez, considero me defender. Somente dar voz à confusão, à raiva e à mortificação que sinto fervendo no meu estômago. Mas eu sei, no momento que me lembra incontáveis outras vezes como esta, que não sou esse tipo de pessoa. A verdade me atravessa: Eu sou a única pessoa que pode garantir que todo mundo continue se divertindo.“ (O que se passa na sua cabeça: Sobre festas legais e racismo eventual, Nicole Chung, 05/01/2016, tradução livre)

Tempo de festa é tempo de racismo. Enquanto todas as outras pessoas podem esquecer de todos os seus problemas, afastar as mágoas e se afundar naquele prazer hedonista despreocupado que só os brancos sabem fazer tão bem, nós, minorias não-brancas, não conseguimos escapar daquilo que continua a nos oprimir. Temos de ser lembrados o tempo todo de porque somos diferentes, os nossos marcadores étnico-raciais continuam presentes, agindo como um filtro das interações sociais, dos relacionamentos, até – e, principalmente – das transações comerciais. O tempo de festejar, para nós, é uma eterna escolha entre esconder os fantasmas ou jogar a merda no ventilador.

Ainda sem muita propriedade, passados alguns dias do tempo de festas, comecei a aprofundar no porquê daquilo me incomodar tanto. Eu ainda não tinha processado o suficiente para perceber que esse tipo de abordagem esteve presente em todas as vezes que participei de uma interação em grupo que não fosse exclusivamente entre amigos e que contasse com a presença de pessoas brancas desconhecidas.

Ainda não sabia denominar muito bem o fenômeno estranho que me fazia passar de uma pessoa quase naturalmente expansiva para uma pessoa imediatamente quieta e reservada. Afinal, não é essa a expectativa do mundo branco? Que as pessoas asiáticas sejam reservadas? Também não sabia descrever direito por que as festas não são tão interessantes para mim, apesar de eu ser claramente festeiro.

Por que eu não tinha toda aquela vontade de conhecer pessoas novas, de flertar, de me engajar? Talvez, porque em um ambiente branco todo mundo já tenha sua opinião sobre a pessoa asiática. Talvez, porque todo mundo já tenha suas devidas explicações sobre a pessoa que você é, sobre todo o pacote de estereótipos que você carrega a priori. Não há  nada de mais interessante para se descobrir a seu respeito. E quando uma pessoa branca te aborda, você sabe que ou ela é fã de mangá ou ela carrega  um fetiche sexual estranho por pessoas da sua cor e quer te dominar de alguma maneira.

Não é de hoje que as negras e os negros são barrados de festas. Recentemente, algumas pessoas se organizaram para denunciar o racismo praticado na entrada das festas do Villa Mix, a demanda foi investigada pelo Ministério Público. As pessoas asiáticas, por sua vez, nunca ou quase nunca experimentaram ser barradas por seus marcadores étnico-raciais de diferença. Entretanto, a nossa participação nestas festas é, muitas vezes, secundária e violentamente diferenciada.

As festas são uma metáfora perfeita de como operam o sistema de discriminação racial e o mito da minoria modelo. No mundo criado pelos brancos, eles podem se divertir, podem se esquecer de quem são e, verdadeiramente, festejar. As pessoas negras, se não estão do lado de fora, vão ser ininterruptamente relembradas do porquê de não fazerem parte daquele mundo. Às pessoas asiáticas, será relegado um papel acessório, mas elas vão poder fingir esquecer do que representam, tentando se comportar como uma minoria modelo, que pode ser quem ela quiser, desde que se lembre que ela é apenas quase-branca. Esse é o chamado sistema de privilégios do mundo branco, no qual até o direito de festejar livremente é um direito exclusivamente  branco.

‘A empregada tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?’

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada

Por Matheus Pichonelli Do Pensador Anonimo

O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de “paredão” organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.

Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.

O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio.

Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.

Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).

Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.

Projeto reúne testemunhos de africanos escravizados

Site publicará em fevereiro 400 relatos feitos entre séculos XVI e XIX

Por Dandara Tinoco Do O Globo

RIO – Gracia Maria da Conceição Magalhães nasceu e morreu livre no século XVIII. A história que ata as duas pontas de sua vida, contudo, é de aprisionamento e servidão. Antes de acumular uma considerável fortuna catalogada em testamento, Gracia deixou forçosamente a Guiné, região africana onde nascera, para se tornar escrava no Brasil.

Nas entrelinhas do documento em que define com minúcia o destino de seus bens — do qual faziam parte uma casa de farinha, uma espingarda, ferramentas e, ironicamente, dois escravos —, o professor Nielson Bezerra, da Uerj, deu início à reconstrução de sua história. Concluiu que Gracia conseguiu comprar, com o seu trabalho, não apenas a própria alforria, mas também a de Manoel Gomes Torres, sob uma condição: a de que ele se tornasse seu marido e vivesse com ela. Moraram na Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Iguaçu (hoje Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense).

A história inédita de Gracia da Guiné integra as quase quatro centenas de testemunhos que, em fevereiro, se somarão aos cem já disponíveis na página virtual do projeto Shadd, batizado em homenagem à abolicionista Mary Ann Shadd. A iniciativa é uma coleção de histórias de indivíduos arrancados do Oeste da África e transportados para Europa e Américas para serem escravizados entre os séculos XVI e XIX. Parte significativa delas é narrada em primeira pessoa. As fontes incluem autobiografias, registros judiciais e outros documentos, explica o editor Paul Lovejoy, professor da Universidade de York, no Canadá.

— Essas histórias nos permitem entender as vidas de indivíduos. Não como escravos, mas como pessoas. O material biográfico nos permite ouvir as “vozes” de pessoas que experimentaram a escravidão. Uma vez que o foco é a África Ocidental, a maioria das pessoas nasceu livre e sofreu a escravidão num ponto de suas vidas, mas, em muitos casos, se tornou livre — detalha Lovejoy.

Foi assim com Osifekunde, nascido por volta de 1795 em Ijebu-Ode, onde hoje está a Nigéria. Capturado em seu país, ele também foi trazido ao Rio de Janeiro, mas, depois de duas décadas no Brasil, mudou-se para a Europa, acompanhando o seu senhor, um homem francês. Lá, onde já não havia mais escravidão, conseguiu a liberdade e conheceu o etnógrafo Pascal d’Avezac-Macaya, a quem relatou práticas culturais iorubás. Autor de livro sobre o assunto publicado em 1845, o cientista conseguiu uma passagem para que o africano fosse a Serra Leoa, mas Osifekunde declinou. No país onde abandonara a vida de escravo, tinha deixado também a família.

— A história de Osifekunde é particularmente interessante por percebemos as aspirações de uma pessoa em todas as suas contradições. Tendo a condição de livre, seu amor por seu filho era maior do que o amor por sua própria liberdade na França. Isso o faz vir ao Brasil mesmo com o perigo de voltar a ser escravo — conta Bruno Véras, historiador pernambucano orientado por Lovejoy em sua tese de doutorado no Canadá.

O trabalho de Véras debruça-se sobre Mahommah Gardo Baquaqua, autor da única autobiografia escrita por um ex-escravo africano que viveu no Brasil. Nascido na África Ocidental e enviado ao Brasil após ser escravizado, ele terá a sua obra “Uma interessante narrativa” publicada com cartas inéditas em português ainda neste ano, pela Civilização Brasileira. Véras e Bezerra são responsáveis pela tradução, do inglês. O personagem é também tema de um recém-lançado site exclusivamente sobre a sua trajetória, assim como Gustavus Vassa, um liberto cuja biografia teria influenciado o movimento abolicionista na Inglaterra.

— A história dos africanos é, ainda hoje, cercada de muita mitificação e estereótipos negativos. Muitos dos que foram trazidos ao Brasil e às Américas no contexto da escravidão eram letrados em árabe e ajami — diz Véras, que busca patrocínio para exposição sobre essas histórias. — Antes de serem escravos, eram pessoas e assim se pensavam. Antes de serem braços, eram ideias, visões de mundo e espírito. Biografias nos permitem enxergar isso.

“NOVAS PERSPECTIVAS”

Uma das histórias a que se refere foi escrita por Mohammed Ali Sa’id. Seu livro, publicado em 1873, narra a infância em Borno, a captura na adolescência e a vida após a escravização. “Minha motivação nesta publicação que acredito ser boa: um desejo de mostrar ao mundo as possibilidades que podem ser realizadas pelo africano, e, na esperança de que meu humilde exemplo possa estimular alguém, pelo menos do meu povo, aos esforços sistemáticos no sentido da cultura intelectual e melhoria”, diz, na introdução. Sa’id passou por Rússia, Oriente Médio, Europa Oriental e América do Norte, onde se tornou professor de inglês, nos EUA. Falava 11 idiomas.

Centenas de novos relatos podem ainda ser achados em arquivos ao redor do mundo. Mais de 12 milhões deixaram a África em direção às Américas no período do tráfico atlântico.

— Muito do trabalho sobre a diáspora africana se baseia em trabalhos estatísticos ou a partir de múltiplas experiências individuais. Não há nada de errado com isso, mas um dos nossos objetivos é conscientizar as pessoas de que é possível contar a diáspora africana usando experiências concretas, e que a abordagem biográfica pode levar a novas perspectivas — afirma Sean Kelley, professor da Universidade de Essex, no Reino Unido, e integrante do Shadd.

Só existe uma raça. E ela surgiu na África

Há alguns anos o racismo voltou a assombrar o mundo e a encontrar expressão política, justamente na Europa, onde não se imaginaria que poderia ressurgir. Na França, as idéias racistas professadas pela Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen e sua filha, Marine Le Pen, atraíram parcela considerável do eleitorado. Em vários outros países europeus, partidos da direita, e até mesmo de movimentos neofascistas conquistaram numerosas cadeiras nos parlamentos. Na mesma medida em que aumenta o número de refugiados e de imigrantes vindos de nações do Terceiro Mundo, aumenta o sentimento de ancestral xenofobia de muitos europeus, que rapidamente encontra seus canais de expressão política.

Do Raízes jornalismo cultural 

É interessante se observar como, ao longo da história, as políticas racistas nunca deixaram de pedir à ciência que legitimasse sua hierarquização social, seus preconceitos e exclusões. Muitos foram os cientistas que prontamente se puseram a conceber teorias, instrumentos de medição, critérios e teses que supostamente definiam as características das diferentes “raças” humanas e formulavam a base de sustentação de uma série de eventos que marcaram a história do homem, da expansão colonial europeia ao apartheid sul-africano, do segregacionismo norte-americano ao nazismo.

Nos últimos anos, a palavra raça, aliás, desapareceu discretamente dos livros escolares e as antigas classificações foram desacreditadas. Isso aconteceu graças às descobertas da paleontologia, da genética, da etnologia. Mesmo assim, ainda existem alguns pesquisadores isolados que professam a existência de raças. Quando, em 1994, os psicólogos Charles Murray e Richard Herrnstein publicaram nos Estados Unidos The bell curve, com 800 páginas de gráficos e análises que “demonstravam” que o QI de negros era inferior ao dos brancos, a obsessão racista que inspirou o livro não deixou margem para dúvidas. Seu objetivo político foi claramente percebido: abolir os programas sociais, colocados em prática há 30 anos por Washington, em favor dos mais pobres.

O que se pergunta, nos dias de hoje, é se um cientista pode se interessar por “raças” humanas sem procurar demonstrar sua desigualdade. Na verdade, cada um de nós tem sua própria definição do termo, assim como os ideólogos do racismo sempre encontram defensores para proclamar que o “politicamente correto” é cientificamente incorreto.

A evolução

No século 18, o botânico sueco Carl von Linné criou o sistema de classificação dos seres vivos – ainda hoje utilizado – e estabeleceu o nome científico de Homo sapiens para a espécie humana. Mas, sem contrariar o pensamento dominante na época, dividiu a humanidade em subespécies de acordo com a cor da pele, o tipo físico e pretensos traços de caráter: os vermelhos americanos, “geniosos, despreocupados e livres”; os amarelos asiáticos, “severos e ambiciosos”; os negros africanos, “ardilosos e irrefletidos”; e os brancos europeus, “ativos, inteligentes e engenhosos”. Essa classificação da diversidade humana em “grandes raças” não só foi totalmente aceita como também serviu de base para classificações futuras, que alteravam a de Linné e oscilavam entre uma variedade que ia de três a 400 raças.

No século 19, as descobertas arqueológicas destruíram explicações simplistas para a origem do homem na Terra, a origem do planeta que habitamos. Em A origem das espécies, Charles Darwin formulou a teoria da mutação das espécies. Observou que, por meio da mutação, as espécies se adaptam ao meio natural, geram criaturas diferentes de si mesmas e dão origem a novas espécies. Concluiu, então, que algumas espécies se extinguiam dando lugar a outras: esse processo seria o da seleção natural. Mais tarde, Darwin estendeu essa teoria para o surgimento do homem, classificando-o como descendente dos antropóides. A comunidade científica e outros setores da sociedade opuseram-se a essa conclusão, pois não podiam admitir que o homem branco, “superior”, descendesse de macacos. Na verdade, sabe-se hoje que o homem é parente do macaco e não seu descendente. As descobertas de Darwin foram muito importantes, mas não definitivas, pois as pesquisas continuam, lançando sempre novas luzes sobre as origens do homem.

A mais antiga espécie de hominídeo foi o Australopithecus, que surgiu no sul da África há cerca de 3 milhões de anos. Este nosso provável ancestral tinha algumas características semelhantes ao homem moderno e criou o primeiro instrumento. Quando um dos nossos ancestrais passou a andar sobre os dois pés, ficou com as mãos livres para fazer e usar objetos. O trabalho com as mãos foi sofisticando a sua capacidade de manipular, estimulando o crescimento do seu cérebro e a sua capacidade intelectual e dotou-o de cultura, diferenciando-o dos animais.

A expansão

O homem começou a se diversificar muito cedo, lá pelos 2,5 milhões de anos, quando saiu de seu lugar de nascimento, a África oriental. Ele se propagou através de todo o mundo antigo, isto é, África, Europa e Ásia. Mas as glaciações produziram dois isolados pontos geográficos: a Europa, na qual o norte foi inteiramente recoberto por glaciares; e a Indonésia, que era unida ao continente asiático e dele foi separada no final das glaciações. Esses dois isolamentos levaram a um “derivado genético” e moldaram dois grupos: o Pitecantropona Indonésia e o homem de Neandertal na Europa, muito diferentes anatomicamente de nosso ancestral, o homem moderno que já vivia algures. Este, o Homo sapiens sapiens, há 500 mil anos expandiu suas fronteiras em todas as direções, a partir de uma segunda onda de povoamento na Europa, na Ásia, na Austrália e na América.

Segundo o paleontólogo Yves Coppens, diretor do Laboratório de Antropologia do Museu de História Natural de Paris, “o Neandertal e nosso ancestral, o Cro-Magnon, ao que se sabe constituíram na Europa duas raças distintas. Mas ainda não sabemos se essas populações se ‘inter-fecundaram’, isto é, se geraram descendência fecunda. Também não sabemos se o homem de Neandertal, desaparecido há uns 30 mil anos, como o pitecantropo indonésio, se fundiu com a população de Homo sapiens, ou se extinguiu.”

Para o paleontólogo, “talvez seja essa a única questão sobre raça que hoje interessa à ciência. Em um século de descobertas, vimos se delinearem outras fronteiras no seio da humanidade. Se retomarmos o sentido zoológico do termo – uma subespécie diferenciada mas que se ‘inter-fecunda’ com outras subespécies –, não existe na superfície da terra senão uma única ‘raça’ humana conhecida, a do Homo sapiens sapiens.”

A pesquisa paleontológica e seu prolongamento antropológico tentam estabelecer, dentre outras coisas, quais são as filiações, os laços de parentesco que unem esses humanos. Mas, para Pierre Darlu, geneticista no Laboratório de Epidemiologia Genética de Paris, “todas as classificações tentadas até hoje tiveram como ponto comum a ocultação do caráter evolutivo do homem”.

André Langanney, diretor do Laboratório de Antropologia biológica do Museu do Homem, Paris, acredita que “existem dois conceitos diferentes de ‘raça’ humana: um inclui as particularidades imediatamente perceptíveis entre os indivíduos (língua, cultura, aparência física), devido às diferenças de suas populações de origem; outro é o conceito ‘científico’, igualmente empírico, aquele que foi estabelecido por Linné no século 18, o das quatro raças. Essa formulação foi contestada, algumas décadas mais tarde, pelo filósofo alemão Johann Gottfried Herder, que afirmava não existirem ‘nem quatro nem cinco raças humanas’, ao contrário, havia a continuidade da variação nas populações”.

Uma só espécie

Dizer, hoje em dia, que existem raças humanas, implica em demonstrar a existência de grupos distintos, possuidores de traços “comuns” entre si e de particularidades que não se encontraram em nenhum outro grupo. É claro que entre um senegalês, um cambojano e um italiano existem, evidentemente, diferenças físicas visíveis: cor da pele e dos olhos, tamanho, textura dos cabelos etc. Mas hoje em dia já sabemos que o patrimônio genético dos três é extremamente próximo. A descoberta dos grupos sanguíneos, da variação das enzimas, das sequências de DNA, dos anticorpos e tantas outras, puseram em evidencia o parentesco dos homens entre si, assim como sua extraordinária diversidade. Uma combinação de genes, frequente numa população e rara em outra, é, assim mesmo, potencialmente presente em toda parte.

A comprovação se deu em 2002, quando uma equipe de sete pesquisadores dos Estados Unidos, França e Rússia comparou 377 partes do DNA de 1056 pessoas originárias de 52 populações de todos os continentes. O resultado mostrou que entre 93% e 95% da diferença genética entre os humanos é encontrada nos indivíduos de um mesmo grupo e a diversidade entre as populações é responsável por 3% a 5%. Ou seja, dependendo do caso, o genoma de um africano pode ter mais semelhanças com o de um norueguês do que com alguém de sua própria cidade na África! O estudo também mostrou que não existem genes exclusivos de uma população, nem grupos em que todos os membros tenham a mesma variação genética.

Muitas diferenças

Na sua longa evolução até atingir a sua forma humana final, nosso ancestral foi se adaptando fisicamente às condições ambientais. Perdeu os pelos do corpo, provavelmente há pouco menos de 2 milhões anos, por que começou a fazer longas caminhadas e precisava esfriar o corpo. Sem pelo, ficou com o corpo exposto e as células que produziam melanina se espalharam por toda a pele. A mudança na coloração da pele foi descoberta em 1991pela antropóloga Nina Joblonski, da Academia de Ciências da Califórnia, Estados Unidos, ao encontrar estudos que mostravam que pessoas de pele clara expostas à forte luz solar tinham níveis muito baixos de folato. Como a deficiência dessa substância em mulheres grávidas pode levar a graves problemas de coluna em seus filhos, e como o folato é essencial em atividades que envolvam a proliferação rápida de células, tais como a produção de espermatozóides, a antropóloga concluiu que nos ambientes próximos à linha do Equador, a pele negra era uma boa forma de manter o nível de folato no corpo, garantindo assim a descendência sadia. Para provar suas teorias a respeito de cor da pele, Nina Joblonski usou um satélite da NASA e criou um mapa de padrões de radiação ultravioleta em nosso planeta, mostrando que o homem evoluiu com diferentes cores de pele para se adaptar aos diferentes meio-ambientes.

Assim, o homem saiu da África e chegou à Ásia, e de lá foi para a Oceania, a Europa e por fim para a América. Nas regiões menos ensolaradas, a pele negra começou a bloquear demais os raios ultravioleta, sabidamente nocivo mas essencial para a formação da vitamina D, necessária para manter o sistema imunológico e desenvolver os ossos. Por isso, as populações que migraram para regiões menos ensolaradas desenvolveram uma pele mais clara para aumentar a absorção de raios ultravioleta. Portanto, a diferença de coloração da pele, da mais clara até a mais escura, indicaria simplesmente que a evolução do homem procurou encontrar uma forma de regular nutrientes.

Claude Blanckaert, historiador da ciência no Museu Nacional de História Natural, Paris, acredita que “a teoria das raças demonstra que a ciência jamais é neutra. A tese da grande corrente tornou-se, com o tempo, uma escala rígida de raças, dominada pelos europeus.”.

A partir de 1860, as ciências naturais e pré-históricas concordam que o homem tem uma história bem mais antiga do que se supunha até então. Mas as teorias se adaptam às idéias darwinistas: ao se admitir que as raças são diferentes quase desde a origem da humanidade, sugere-se que certos povos foram submetidos a uma “interrupção de desenvolvimento”.

No século 20, as mitologias nacionalistas foram dominadas pelos clichês, tudo para justificar as políticas colonialistas. O auge desse pensamento foi a ideologia da raça “ariana”, uma tremenda enganação científica, que justificava a eliminação da “anti-raça”, o judeu.

O século 21 fez sua estréia sob a sombra da divisão entre o bem, simbolizado por povos ocidentais (americanos e europeus) e o mal, personificado pelos povos do oriente. Que as idéias racistas não criem mais nenhuma explicação “científica” para provar mais nada!